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Bando Anunciador | Cultura Popular | Bando Anunciador preserva séculos de história e reforça identidade cultural de Feira de Santana

Historiador Carl Lima explica a origem da manifestação, destaca as transformações ao longo do tempo e ressalta a importância da tradição para a memória coletiva da cidade

Bando Anunciador | Cultura Popular | Bando Anunciador preserva séculos de história e reforça identidade cultural de Feira de Santana
📸Onildo Rodrigues

O Bando Anunciador, uma das mais tradicionais manifestações culturais de Feira de Santana, vai muito além da festa popular. Com raízes no século XIX, o cortejo representa o anúncio dos festejos de Senhora Sant’Ana, padroeira do município, e carrega consigo elementos históricos, religiosos e culturais que ajudam a contar a formação da identidade feirense.

Em entrevista, o historiador, mestre em História e guia de turismo Carl Lima explicou que o Bando Anunciador é uma tradição presente em diversas cidades brasileiras, sempre ligada ao anúncio das festas dos padroeiros locais. Em Feira de Santana, segundo ele, a consolidação da manifestação ocorreu na segunda metade do século XIX, durante a organização da Festa de Senhora Sant’Ana.

“O próprio nome já diz: é o momento de anunciar que a festa da padroeira vai acontecer. Hoje entendemos o Bando como a parte profana da Festa de Sant’Ana, que passou por muitas transformações ao longo da história”, afirmou.

Mudanças ao longo do tempo

Carl Lima destacou que o Bando Anunciador nem sempre aconteceu da forma como é conhecido atualmente. Nos primeiros registros, o cortejo era realizado em diferentes dias da semana, sempre no final da tarde, estendendo-se pela noite. Atualmente, acontece pela manhã e em um domingo.

Outra curiosidade revelada pelo historiador é que, entre as décadas de 1920 e 1950, toda a programação da Festa de Sant’Ana, incluindo o Bando Anunciador, foi transferida para o mês de janeiro.

Segundo ele, a mudança foi proposta pela Igreja para evitar o frio do mês de julho e facilitar a participação das famílias mais influentes da cidade, cujos filhos retornavam das férias escolares nesse período.

Somente nas décadas de 1960 e 1970 a festa voltou a ser realizada em julho, acompanhando novamente a data dedicada à padroeira.

Influências culturais e transformação popular

Embora tenha origem ligada à tradição católica portuguesa, o Bando Anunciador incorporou, ao longo dos anos, fortes influências das culturas africana e afro-brasileira.

Carl Lima lembra que, inicialmente, a manifestação era predominantemente frequentada pela elite feirense. Com o passar do tempo, tornou-se uma celebração popular, com ampla participação dos bairros e das camadas trabalhadoras da cidade.

A festa também reúne outros momentos tradicionais, como o novenário religioso, o pregão, a Lavagem da Lenha e a Levada da Lenha, manifestações marcadas pela forte presença das religiões de matriz africana.

Segundo o historiador, nomes como Mãe Socorro e Pai Zeca de Iemanjá tiveram papel importante na organização da Lavagem da Lenha, tradição que consistia em levar lenha para a grande fogueira montada em frente à Igreja Matriz, responsável por iluminar e aquecer os romeiros durante a festa.

Fantasias, irreverência e tradição

Outro aspecto marcante do Bando Anunciador é o uso de fantasias. De acordo com Carl Lima, essa característica acompanha a manifestação há décadas e ganhou ainda mais força quando a festa passou a acontecer em janeiro, funcionando como uma espécie de prévia do Carnaval.

Na época, era comum a participação de blocos carnavalescos, personagens fantasiados de ciganos, orientais e figuras satíricas, além de músicas e brincadeiras que ironizavam a elite da cidade.

“Com o tempo, a elite deixou de ser protagonista e o povo assumiu o protagonismo da festa. Bairros como Rua Nova, Baraúnas e Queimadinha passaram a dar o tom do Bando”, explicou.

Percurso também faz parte da história

O trajeto do Bando Anunciador também sofreu diversas alterações ao longo dos anos. Em diferentes épocas, contou com carros ornamentados, caminhões, trios elétricos e, atualmente, charangas, fanfarras e grupos de percussão.

Uma das tradições mais aguardadas era a passagem pelos becos históricos da cidade, especialmente o Beco do Mocó e o Beco da Energia, considerados momentos de maior interação entre os participantes.

Neste ano, porém, o percurso foi alterado e esses trechos ficaram fora do roteiro oficial.

Patrimônio vivo da cultura feirense

Para Carl Lima, o Bando Anunciador permanece como uma das manifestações culturais mais democráticas de Feira de Santana.

“O Bando é uma festa viva, popular e construída pelo povo. Assim como a Micareta, faz parte da identidade da cidade e precisa ser valorizado e preservado pelas futuras gerações”, concluiu.

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