Endividamento familiar | Inadimplência | Endividamento recorde pressiona famílias e já impacta o comércio em Feira de Santana
Com renda apertada, juros altos e custo de vida em alta, feirenses relatam dificuldade para fechar as contas; especialista alerta para aumento da inadimplência
O Brasil enfrenta em 2026 um cenário de endividamento recorde das famílias. Juros elevados, inflação persistente e perda do poder de compra têm pesado no orçamento doméstico. Em Feira de Santana, a realidade acompanha a tendência nacional e já afeta diretamente o dia a dia da população e o desempenho do comércio local.
No centro da cidade, a reportagem foi às ruas para ouvir quem vive essa situação de perto. Entre histórias de aperto e esforço para manter as contas em dia, o que se vê é um equilíbrio cada vez mais difícil.
Mesmo com disciplina financeira, o cenário preocupa. O aposentado Antônio Bispo afirma que consegue manter as contas organizadas, mas reconhece o momento delicado.
“Está meio difícil para muitos. Eu graças a Deus pago tudo em dia, até adiantado. Faço tudo na ponta do lápis”, disse. Para ele, o principal peso no orçamento hoje é o combustível. “Está muito caro. A gente tem carro e sente no bolso.”
Já outros feirenses vivem uma realidade mais apertada. Um entrevistado, que preferiu não se identificar, relata acúmulo de dívidas e dificuldade para acompanhar o aumento das despesas.
“Estou com várias dívidas, do carro e de casa. A situação está difícil para fechar o mês”, contou. Ele afirma que já precisou renegociar pagamentos após aumento das parcelas. “O que era R$ 700 foi para R$ 900. Não tinha condição.”
Outro trabalhador do comércio informal também descreve um cenário de instabilidade. Segundo ele, o dinheiro já não é suficiente para cobrir todas as despesas.
“Está tudo caro. O que a gente ganha não dá para tudo. Só o básico mesmo: água, luz e gás”, relatou. Para viver com mais tranquilidade, ele estima que uma renda entre R$ 6 mil e R$ 7 mil seria necessária.
Renda baixa e despesas altas ampliam endividamento
De acordo com o economista Antonio Rosevaldo Ferreira, o quadro em Feira de Santana reflete um problema estrutural.
Segundo ele, mais de 70% da população vive com até dois salários mínimos, o que compromete grande parte da renda com despesas fixas.
“Prestação de casa, carro, energia, água… tudo isso consome uma parte significativa da renda. E o que sobra é muito pouco”, explicou.
O especialista destaca ainda que o cartão de crédito, muitas vezes apontado como vilão, é apenas parte do problema.
“O grande problema é que a renda não cresceu no mesmo ritmo das despesas. As pessoas estão se endividando para sobreviver, inclusive para comprar comida”, afirmou.
Outro fator de preocupação são os juros elevados. O rotativo do cartão de crédito, por exemplo, pode ultrapassar 400% ao ano, o que acelera o crescimento das dívidas.
Informalidade e crédito fácil agravam cenário
A alta taxa de informalidade em Feira de Santana também contribui para o aumento do endividamento. Sem renda fixa ou proteção social, trabalhadores informais ficam mais vulneráveis a qualquer imprevisto.
“Se um trabalhador informal sofre um acidente ou perde renda, ele acaba se endividando até para comer”, pontuou o economista.
Além disso, a facilidade de acesso ao crédito tem incentivado o consumo sem planejamento. Em muitos casos, empréstimos são feitos para pagar outras dívidas, criando um efeito “bola de neve”.
Comércio já sente os efeitos
O impacto já chegou ao comércio local. Consumidores mais cautelosos, redução no poder de compra e aumento da inadimplência preocupam lojistas.
Segundo relatos ouvidos pela reportagem, muitos clientes estão priorizando apenas despesas essenciais, deixando de consumir outros produtos e serviços.
Perspectiva é de alerta
Para os próximos meses, a tendência ainda é de aumento da inadimplência, caso não haja medidas mais amplas de controle.
Entre as soluções, especialistas apontam a necessidade de políticas de renegociação de dívidas, redução de juros e, principalmente, educação financeira.
“O primeiro passo é entender o que é essencial e cortar gastos desnecessários. Sem isso, a dívida continua crescendo”, concluiu o economista.
Comentários (0)