Memória e Cultura | Caravana Pierre Verger leva fotografias da cultura popular à praça do Lambe-Lambe em Feira de Santana
Exposição reúne registros históricos de Pierre Verger e valoriza a memória, os costumes e a tradição nordestina; fotógrafo José Alves, há 52 anos na praça, destaca a importância do espaço para a história da fotografia na cidade
A Praça do Lambe-Lambe, no centro de Feira de Santana, ganhou um novo olhar sobre a cultura popular e a memória nordestina com a chegada da Caravana Pierre Verger. A exposição reúne fotografias do francês Pierre Verger, fotógrafo e antropólogo que percorreu diferentes regiões do Brasil registrando manifestações culturais, festas populares, personagens e cenas do cotidiano.
Idealizado pela Fundação Pierre Verger, que mantém em Salvador o espaço de preservação da memória do fotógrafo, o projeto busca aproximar essas imagens dos lugares e das pessoas que fazem parte dessa história.

Débora Almeida 📸Onildo Rodrigues
Segundo Débora Almeida, uma das responsáveis pela exposição, a escolha de Feira de Santana tem relação direta com a trajetória de Verger e com a própria característica da cidade.
“Feira de Santana é essa terra do cruzamento”, destacou Débora, ao lembrar que o município é marcado historicamente pelo trânsito de pessoas, culturas e diferentes formas de expressão. Para ela, a Praça do Lambe-Lambe representa bem essa característica.
O local escolhido para receber as fotografias também carrega uma forte relação com a história da fotografia em Feira. Na praça, profissionais trabalham há décadas registrando momentos importantes da vida dos moradores.

José Alves 📸Onildo Rodrigues
Um dos exemplos é o fotógrafo José Alves, que chegou a Feira de Santana em 1974, vindo do sertão, e está há 52 anos trabalhando na Praça do Lambe-Lambe.
A história dele com a fotografia começou justamente quando foi se alistar. Na ocasião, teve contato com uma máquina fotográfica e descobriu a fotografia em preto e branco. A experiência foi tão marcante que decidiu seguir a profissão.
“Eu abandonei cavalo, gado, tudo. No dia que me alistei, comprei logo a máquina”, contou.
Ao longo de mais de cinco décadas, José Alves acompanhou as transformações da fotografia. Trabalhou com registros para documentos, eventos e casamentos, além de atuar como repórter fotográfico em veículos de comunicação de Feira de Santana.
Para ele, a presença da exposição na praça ajuda a preservar uma história que não pode ser esquecida, principalmente diante das mudanças provocadas pela fotografia digital.
A exposição também estabelece uma conexão entre o trabalho de Verger e a memória de Feira de Santana. Duas fotografias da cidade fazem parte da seleção apresentada na praça, entre elas registros relacionados à antiga realidade rural e às figuras do vaqueiro e do tropeiro.
De acordo com Débora Almeida, essas imagens ajudam a recuperar a ancestralidade sertaneja da cidade.
“Essa figura é muito forte, ela não pode ser esquecida”, afirmou.
Além das fotografias diretamente relacionadas a Feira, outras imagens também despertam identificação entre os visitantes. Registros de capoeira, religiões de matriz africana, festas populares, artesanato e cenas do cotidiano revelam aspectos culturais compartilhados por diferentes cidades nordestinas.
A proposta é justamente fazer com que o público pare, observe e reconheça parte da própria história nas imagens.

Elder Vogelsberg 📸Onildo Rodrigues
Durante a visita à exposição, o norte-americano Elder Vogelsberg, que está em Feira de Santana como missionário, também destacou a experiência. Ele contou que ficou impressionado com as fotografias e com a história apresentada.
“Eu gostei muito da história que tem aqui”, afirmou.
Elder também chamou atenção para uma imagem relacionada a uma igreja de Feira de Santana e falou sobre a receptividade encontrada na cidade.
A escolha da Praça do Lambe-Lambe ganha ainda mais significado pela presença dos fotógrafos que resistem no local há décadas. Para Débora, levar a Caravana Pierre Verger para a praça é também uma maneira de dar visibilidade a esses profissionais e estimular os moradores a olhar novamente para um espaço muitas vezes atravessado apressadamente no cotidiano.
A Caravana começou em Salvador, passou por Cachoeira durante a Festa da Boa Morte e chegou a Feira de Santana. Depois, seguirá para outras cidades antes de ter como destino final Brasília.
Em Feira de Santana, a exposição permanece aberta ao público até domingo, dia 6, na Praça do Lambe-Lambe.


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