LITERATURA QUILOMBOLA | IDENTIDADE E MEMÓRIA | “ESCRITA QUILOMBOLA” REÚNE 67 AUTORES E TRANSFORMA MEMÓRIA E ANCESTRALIDADE EM LITERATURA
COLETÂNEA SERÁ LANÇADA EM OUTUBRO, NA COMUNIDADE MOITA DA ONÇA, E REÚNE TEXTOS DE CRIANÇAS, ADULTOS E IDOSOS DE DIFERENTES COMUNIDADES QUILOMBOLAS
A literatura como instrumento de memória, identidade e resistência. Essa é a proposta da coletânea “Escrita Quilombola”, que reúne 67 autores de diferentes comunidades quilombolas da Bahia e terá seu lançamento no dia 17 de outubro, às 15h, na comunidade de Moita da Onça, em Feira de Santana.

Ednalva Santos 📸Onildo Rodrigues
Coordenada por Ednalva Santos da Silva, a publicação reúne diferentes vozes, experiências e perspectivas da população quilombola. A obra busca dar visibilidade aos saberes, às histórias, às tradições e às lutas dessas comunidades a partir do olhar de quem vive essa realidade.
Para Ednalva, a coletânea representa uma forma de ocupar um espaço que, historicamente, foi marcado pela ausência das próprias vozes quilombolas.
“É chegado o momento de nós falar de nós”, destacou a coordenadora durante entrevista. Segundo ela, a obra reúne histórias de ancestrais, experiências das comunidades, a potência das crianças e manifestações da cultura quilombola.
A coletânea reúne autores de diferentes idades e localidades. Entre os participantes estão 20 crianças e cerca de oito idosos, além de uma maioria de mulheres. Há também a participação de griôs, responsáveis por preservar e transmitir conhecimentos e histórias das comunidades.
Os textos apresentam uma grande diversidade de formatos e temas, incluindo poesias, relatos, histórias, cordéis e escrevivências. Entre os assuntos abordados estão práticas ancestrais, rezas, parteiras, formas coletivas de plantio, a importância da mandioca, o empoderamento do cabelo crespo e histórias de luta pela permanência e pelo território.
Um dos registros mais marcantes é o relato de Dona Dara, de 103 anos, que não sabe ler, mas teve sua história registrada na publicação.
O projeto também tem uma atenção especial às novas gerações. Segundo Ednalva, estimular crianças e adolescentes a escrever é uma maneira de fortalecer o sentimento de pertencimento e combater os efeitos do racismo e da invisibilização histórica da população negra e quilombola.
Entre os jovens autores está Luane, de 10 anos, moradora da comunidade quilombola do Candeal II, no distrito da Matinha, em Feira de Santana. Incentivada pelas escritoras de sua comunidade, ela começou a produzir poesias e já participa de atividades de declamação.

Poetisa Luane 📸Onildo Rodrigues
Na coletânea, Luane apresenta um poema sobre Joaquim, personagem ligado à história da comunidade e à luta pelo território onde atualmente está localizada a escola em que ela estuda. O texto resgata a memória de um homem que, segundo o relato apresentado na entrevista, morreu lutando pela permanência da comunidade em seu território.
Para Ednalva, experiências como a de Luane mostram a importância de preparar as novas gerações para ocupar espaços de representação e valorizar os conhecimentos produzidos dentro dos próprios quilombos.
A construção da coletânea levou cerca de um ano. O processo envolveu convites a autores de diferentes comunidades, reuniões virtuais, grupos de comunicação e oficinas de produção textual. No caso das crianças, foram realizadas atividades envolvendo poesia, cordel e escrevivência. Já os relatos dos griôs foram construídos com a participação de familiares e moradores.
A obra reúne representantes de comunidades quilombolas de municípios como Feira de Santana, Cachoeira, Iaçu, Seabra e outras localidades da Bahia, ampliando a diversidade de experiências presentes na publicação.
Além da “Escrita Quilombola”, Ednalva já projeta novos trabalhos. A ideia é produzir uma coletânea dedicada exclusivamente às crianças e, posteriormente, outra voltada para escrevivências femininas.
O lançamento da “Escrita Quilombola” será realizado no dia 17 de outubro, às 15h, na comunidade de Moita da Onça, em Feira de Santana. A expectativa é reunir moradores, escritores, estudantes e representantes de diferentes comunidades em um momento de celebração da memória, da cultura e da ancestralidade quilombola.
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